disforias importância do feminismo na infância e outras resistências

Pablo Picasso, deux femmes courant sur la plage.

As meninas, dentro da minha vivência e das que tenho perto da vida, sempre foram disfóricas de gênero, até entender como funciona e vêm funcionando o sistema de dominação masculina que nos mata e assedia cada vez mais nos discursos, não somente nos discursos, em quase todas as formas de se chegar ao outro pelo caminho mais agressivo. É impossível conhecer alguma menina, na fase dos 15/16 anos de idade que nunca tenha tido ao menos uma crise de disforia de gênero numa sociedade em tudo patriarcal, que nos coloca em subposições, limita nossas vontades, desejos e sonhos, dita nossas profissões e a estrada que trilharemos desde a concepção até a morte. É impossível se encaixar em um padrão de feminilidade imposto as mulheres que nos exige um comportamento belo, recatado e do lar em todas a situações. É impossível se sentir completa e se identificar com um padrão de feminilidade imposto as mulheres nitidamente e sem sombra de dúvidas construído por imaginários masculinos, como todas as falácias que rodeiam o ser mulher, numa sociedade machista e misógina. Por isso, empoderem as meninas. Empoderem muito as meninas de vocês, as nossas meninas. As vezes elas vão se sentir um monstro porque um menino discordou erroneamente das opiniões dela e foi muito aplaudido por isso, enquanto ela estando com a razão foi ignorada, e ela vai se sentir no corpo tempo alma espaço errado, vai querer ser um menino, porque a sociedade evidencia e ela vai perceber em alguns ou muitos momentos da sua vida que ter um pênis é um instrumento absurdo de poder, de poder literalmente tudo, desde ter os erros aplaudidos até pensar que as vontades e vidas alheias giram em torno da sua existência. Empodere suas meninas, porque vai ter dias que elas vão acordar e se olhar no espelho, se sentirem feias demais, dias que vão querer ficar trancadas para que ninguém as vejam com uma espinha na testa porque os comerciais de creme para a pele aliviadores de espinhas são extremamente violentos com elas, quando mostram que a moça estava animada para sair mas se olha no espelho, vê uma espinha no nariz e pega o celular para desmarcar com o namorado, mas aí aparece um creme mágico e ela no outro dia, quando a espinha desaparecer, vai poder deixar o namorado lhe ver, mas não só esses comercias, em massa, quase todas as estruturas que compõe a sociedade, reforçam um ditadura da estética perfeita e do culto a um padrão corporal-facial inalcançável por mulheres reais. Empoderem as meninas, digam que elas são livres, que são maravilhosas, que devem acolher as outras, que merecem ser ouvidas e aceitas da maneira que são. Che Guevara disse que a melhor forma de lutar contra o capitalismo é estudar. Eu só passei a me olhar direito e conviver em paz com meu dedo mindinho torto, meu rosto redondo, meu cabelo cacheado e minhas sardas tão unidas no rosto que parecem uma super sarda só e que por diversas vezes na escola fui chamada de suja pelos meninos, quando comecei a ler sobre os direitos das mulheres, sobretudo, quando um professora, no 2° ano me mandou fazer um trabalho sobre a lei maria da penha, pesquisei, diversos links feministas, fiquei louca, nunca tinha ouvido falar. Fiz o trabalho, arrasada, embora conhecesse bem de perto, muitas histórias de mulheres que sofreram com a violência doméstica em níveis devastadores, continuei nessa imersão de links e tumblrs informativos. Primeiro contato com feminismo: mulheres, de diversas formas e personalidades, que se amavam nas suas diversas formas. Mulheres que lutava por outras mulheres e com outras mulheres ao invés de brigarem entre si, o que eu já tava tão acostumada a ver e tinha em mim como certo, elas estavam debatendo e se acrescentando, cada vez mais ocupando espaços de fala normativamente masculinos. Fiquei fascinada. E onde era que eu tava esse tempo todo? Cortei o cabelo como promessa de parar com a chapinha de vez e fui questionada muitas vezes na escola -inclusive por pessoas adultas, como os meus professores, que eu sempre coloquei em um altarzinho e achava que eram as pessoas mais instruídas do mundo- o porquê de eu ter feito aquilo, que eu era muito melhor de cabelo chapado e grande, entendia cada vez mais o porque do feminismo existir e ser tão importante para as mulheres, trata de estar do seu próprio lado, o lado certo de estar. E eu não conheço outra forma de empoderar meninas, e quero ainda muito aprender e conhecer sobre, que não seja falando de outras mulheres, contando-lhes a história tal qual é, claro, que com jeitinho, incentivando a ler sobre os direitos das mulheres, suas conquistas, suas reivindicações de décadas que ainda não foram atendidas, as que foram atendidas, estudando com elas as mulheres que lutaram tanto pra ela hoje ser uma menina mais livre do que meninas como elas já foram, explicando que ser bonita é se conhecer, é se aceitar com a própria natureza de cheiros pelos e temperamentos que toda uma cultura industrial misógina vende como algo não saudável mas que é completamente normal sim, incentivando-as a ver filmes dirigidos por mulheres, a lerem livros escritos por mulheres, escutarem músicas cantadas por mulheres -porque não ta na mídia e o acesso talvez seja mesmo meio complicado, mas se procurar direitinho, vai dar pra achar uma infinidade de trabalho feminino- e mais que tudo, dizer que elas podem, empoderar no sentido mais literal da palavra. Empoderem nossas meninas. Conhecer a própria história e as suas antecessoras é combustível da resistência feminina, é força pra continuar lutando pela tão sonhada, falada, debatida, imprescindível e urgente abolição de gêneros, que é o que sustenta e onde mora toda a nossa opressão. Estudar a luta feminista é entender as razões das disforias, das dores do despertencimento de mundo, da solidão, da rivalidade feminina que volta e meia nutre o machismo muito mais do que tem chuchu na serra e do medo já impregnado no existir mulher e muitas vezes não entender porque deus quis desse jeito. Empodere as meninas, feminismo na infância é importante demais no meio dessa resistência toda, porque não há desconstrução sem construção concretamente arquitetada. Seguremos umas nas mãos das outras, tenhamos consciência da força de nossas antecessoras que estão presentes mais que tudo em nossas lutas e vitórias, empoderemos nossas meninas, construamos cada vez mais meninas que não cresçam com as dores que crescemos e o peso da nossa existência introjetado desde de o nosso primeiro ver do mundo, costruamos cada vez mais meninas com auto estima elevada, tendo consciência de sua história e lutando como uma mulher luta. Lutemos como mulheres, seguremos umas nas mãos das outras, empoderemos nossas meninas.

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todo grande amor

crescer é aprender a morrer na própria goela de um autotiro interno e o mais certeiro. crescer é quando a gente tem que apertar encolher esquecer mágoa dentro do peito rancoroso do jeito que se formou e já tão amontoadinho de tanta coisa nova boa ruim que não grita afinado. quando as lágrimas pelos motivos menores que sejam rodeiam tudo e todos -locais, cabelos, pescoços, ventos- mas ninguém percebe, e um eco ilumindo se faz a coisa mais presente aos nossos olhos e todos os sentidos. mas também a palavra crescer como palavra bonita: todo grande amor só é bem grande se for triste. aí entendi vinicius pela décima nona situação na vida e repito pela décima nona vez: não é fácil.

três da madrugada inteireza casei com gal dezessete vezes

casei com gal dezessete vezes, três da madrugada, setenta e duas vezes fiquei com essa música pra mim porque minhas costas doíam sempre às três da madrugada, gal no ouvido, como faria qualquer ótima parceira. todo e qualquer reflexo na parede era um susto intrínseco se misturando com os outros medos, aquele de se olhar ao menos metade e conseguir enxergar além, dizem que é coisa da besta e quem procura acha, e isso de não se olhar com olhar inteiro por medo de achar o que se procura já virou ferida viva aqui, de muito tempo. e depois desse muito tempo descobri que não era gal, era torquato, mas já tinha casado com gal tantas vezes, em tantas dores e carnavais, que meus sustos já tinham sua voz cantando às três da madrugada como quem nina e olha um acorde que acaba de nascer, qualquer arrepio quente ou frígido no coração era sinal pros nossos encontros, aí descobri que torquato depois de escrever e ler o que escrevia, rasgava, tacava fogo e ia ao cinema; não demorou muito, me apaixonei por torquato. gal e eu casamos com torquato e tivemos uma filha, ela mora na voz que sempre desafina e ama em meio ao eclipse oculto e toda palavra calada às três da madrugada, apesar de sempre presente, só as vezes é que ela vem nos visitar, já aprendeu a usar as próprias asas e voa mares açudes e queimadas afora como quem não lembra e nem pensa em voltar, mas tem sempre uns olhos saudosos. ontem, nos encontramos os quatro, me olhei metade como se as costas estivessem sendo seguradas por uma reza daquelas que molham a alma e deixa mais viva pra continuar a rotina. me enxerguei inteira, com um medo gritando pelos cílios sim, mas muita força nos ombros de conseguir se vigiar dentre a noite. porque se tem uma coisa que aprendi certo nessa vida é que a solidão não flui com lucidez e a respiração chega sempre mais cansada quando a vigília noturna não acontece do lado de dentro primeiro, estar em si e consigo, mesmo que em outros mundos e passeando em sensações alheias é carimbo da madrugada, fugir disso é caminho certeza de voltar um dia. nossas costas precisam muito da gente. segurar peso, aguentar chororô e dividir prazer. eu não sei direito se é isso, sabe? mas é escritinho o que gal me diz. ah, e também, no domingo acordo e tenho uma vontade de nunca mais lavar o corpo porque as palavras de gal me impregnam inteira e a palavra inteira me lembra muito a clarice, aí que eu acho mesmo a coisa mais linda desse mundo. como eu gosto de ir mais longe, sobre inteireza, a gente conversa muito, gal me mostra que vai além demais, e por isso que não canso de casar com ela. então eu tomo um banho intitulado domingo e minhas sobrancelhas ficam todas despenteadas como sempre, me olho metade e ainda me vejo toda impregnada de inteireza. gal, obrigada pela sua existência inteira, por estar na minha.

dentes de deus

passar trezentas e sessenta e sete vezes por aquele sinal sempre engarrafado me mostrou que é sempre difícil não começar com um grito, com um toque ou um beijo. que as coisas menos tranquilas do mundo podem se tornar as piores quando não começam daquele jeito, e se tornam ao longo longo longo do tempo, que não voltou nunca mais. ainda bem, sabe? que por aqui foi diferente. começou sendo uma aberração de 85 cm me invadindo o peito numa velocidade de felipe massa elevado a dezenove. paixão violenta e murro em ponta de faca no meio de qualquer praça portuguesa indiferente pra trezentos e sessenta e sete carnavais. quando eu era pequena, bem pequena, ouvia barulho de caminhões e vento, motos velozes e felizes com suas quatro crianças na garupa de uma aventura, na praia meu cabelo voava e numa teoria fantástica que o sol evapora qualquer coisa ou as deixa mais intensa, eu não sei de nada sobre a física, mas involuntariamente escorregava a mão no rosto pra sentir as sardas mais elevadas e fora do corpo e nunca senti, depois sentia o vento bater. tem gente que tem gostinho do que a gente era, e gostava de ser, e ainda tenta voltar a ser. tem gente que resgata a nossa malinha escondida e ainda medrosa que a gente não consegue mostrar com facilidade. tem gente que invade a gente e nos gera amor pra uma multidão daquelas que odeio, passar a vida sem reclamar de amor. e você, me invade o peito e me faz tomar um banho daquela coisinha chamada endorfina que minha mãe vive falando, que eu nunca entendi direito, mas meus pés voltam molhados dela e sinto meu dedão se curvar na hora do sono. e você, quando fala de luta e de resistir, de ciclo de signo e de alface. e você que me invade o peito quando fala que se apaixonou porque a ouviu falar de literatura primeiro. e você, que me acaricia e castiga o peito quando vem falar do seu cinema, de como suas unhas cresceram, que querem derrubar o lula a qualquer custo, e segura minha mão. e você e para você, ainda quero muito frio e conversa, calor dos teus estudos sobre o universo e teu amor de praxe aos bichos que eu me tremo quando sinto cheiro. para você e com você, ainda passarei a maior parte das minhas noites introspectivas e de perguntas difíceis a vida, minhas lágrimas de corpo doendo. com você, que segura minha mão e venceu os momentos não fáceis, pelo seu silêncio e os fenômenos precisos de questionar o eu pra agora segurar minha mão e me olhar como quem explica que ainda estará aqui por muito tempo. por você, com você e à você: ainda quero escrever muito sobre como to me descobrindo morando ao teu lado, no teu cabelo cheiro de alfazema, no meu coração lá dentro no mais íntimo espacinho que você conhece bem, eu to crescendo, descobrindo que o mundo é feito de outras coisas, além de mel, ouro e dentes de deus.

(una resposta)

minha pele não é sempre a que mora tua e

a minha boca não te pertence sempre a

rotina, mas eu te respondo aqui com todo e

intenso eu que Vem, vem dançar comigo

a saudade quer te responder perto e logo

eu vou responder a saudade que você escreveu sobre minha pele nos dias com tudo que há nos quatro cantos de qualquer lugar que me deixa ser eu um pouquinho mais e aí te encontra tão emaranhada em mim também. vou te responder com minha mão subindo lenta e intensa pela tuas pernas, com minha coluna torta que se supera quando quer fazer do teu corpo um encontro extenso e único com o meu em um espaço de um só corpo, nous. quero te responder firme e de caso com o vento que entra e a gente não sente, e só as vezes se importa. quero te responder com o calor e a luz que o coração despeja em qualquer gesto sentido e os que nao, quero te responder da forma como tudo fica diferente quando é você, quando tem você. quero te responder com o que nos entrega em menos de dois minutos de dança ou beijo, a intimidade do olhar, do gesto. quero te responder com meus passos e desejos, os que mais me carregam, exacerbados de você. quero te responder com o que já sou e soo perto dos teus costumes e neuras e danças sozinhas e teus zilhões de cabelos que me conseguem caber. quero responder tua mão sempre calma e decidida me engolindo que você, não pela primeira vez na vida, foi ponte pra eu me conhecer. eu quero te responder que você calada já me disse as coisas mais inteiras e firmes e Breguinhas que a gente pensa que nunca vai ouvir de alguém, que é coisa só de história de vó. quero te responder que parada e meio míope você fez movimentar um vulcão já estabelido no meu peito, que por causa de você ele passou trilhões de vezes pelas minhas ventas e pelo meu dente pequeno e torto e foi até o quinto ossinho da minha coluna, que rodeou minha costela com quentura e excrescência, que me partiu várias vezes e que embalou as veias da minha mão magra numa pontilha absurda de leveza. quero te responder que vem, porque quando eu acabo toda melada e olho nos teus olhos, eu te vejo olhando também, e é nesse amor que eu quero caber.

então vem, vem dançar comigo

imenso

o quintal da vó é maior que o mundo, e ele deve ter aprendido com ela. ela sabe ser grande, desde a recepção até o colo e o cafuné, no açucar do café também. ela sabe ser imensa, tudo lá tem cheiro de aconchego, de sono, de segurança pra poder encostar e tirar uns cochilhos e de segurança pra poder correr e se ralar, de imensidão fora dos filmes. todo mundo conhece ao menos um lugar no mundo que sabe ser imenso e que te deixa sentindo tudo no peito, sentindo que você tem um peito, sentindo que você sente e que também sabe sentir bonito de vezenquando, e esse lugar é a minha vó.

e ela nunca me contou mas eu sei desde que tinha dez anos que todos os lugares confortáveis e gostosos de escorar e tomar três garrafas de vinho ou café, frio ou calor, com céu ou sem terra, que sabem ser imensos, aprenderam com ela, esses lugares que vocês gostam de ficar por horas porque a alma de vocês se escora e descansa, que vocês se encontram consigo, então, minha vó que ensinou eles a serem assim.

e talvez ninguém nunca tenha te contado essa história sobre a origem dos melhores lugares. então, foi minha vó.

o gafanhoto

joão ja acorda dizendo que quer ver o gafanhoto no quintal, a vó de um lado pro outro, volta dez passos de onde estava e pergunta o que foi que ele disse que queria ver. os passos devagar, a luz já não é a mesma da manhã, ou ao menos de quando a gente achou o gafanhoto no quintal, o tempo corre. a vó fez o café, varreu a cozinha, comprou a tapioca e já nos serviu. perguntou se a gente queria água e o joão querendo calçar a chinela pra ir no quintal ver o gafanhoto, escolheu o copo de beber água. a gente fala que não, mas voamos igual com o tempo, ainda bem.

ir e voltar, fazer, regar, escutar, falar, acolher, voltar os passos. sim, a importância de ter alguém pra te lembrar de beber água. vó é sempre ter certeza que a gente tem um colo maior que a vida, e que eu agorinha mesmo, escrevendo sobre e imaginando a dimensão disso tudo, nem chego a imaginar direito um dedinho da dimensão disso tudo. mas eu sei que é muita coisa.

aí depois a gente encontrou o gafanhoto e o joão fala gavioto, e depois do som dos passos da vó perguntando o que ele tinha falado, eu achei a coisa mais linda do dia.